Entenda o papel do memorial descritivo na hora de conferir o imóvel novo

Imagine que você acabou de receber as chaves do seu apartamento novo. A empolgação é enorme e a vontade é de começar a mudança imediatamente. No entanto, antes de qualquer móvel entrar, existe uma etapa que muitos deixam passar batida: a conferência detalhada de tudo o que foi prometido no papel. É aqui que o memorial descritivo deixa de ser apenas um punhado de páginas técnicas guardadas na gaveta e vira o seu maior aliado.

O memorial descritivo é, essencialmente, a certidão de nascimento técnica da sua unidade. Ele detalha cada material, marca, acabamento e especificação que a construtora se comprometeu a entregar. Pense nele como uma lista de ingredientes e procedimentos de uma receita. Se no contrato ou no material publicitário foi prometido um porcelanato de determinada marca ou um tipo específico de esquadria, é no memorial que as especificações técnicas dessas escolhas estarão detalhadas. Sem ele, fica quase impossível saber se o que está instalado corresponde ao que foi vendido.

Existe uma tendência natural de focar apenas na estética quando entramos em um imóvel pronto. Olhamos a cor da parede, o brilho do piso e o design das portas, mas esquecemos de verificar se a espessura do vidro é a que garante o isolamento acústico prometido ou se a marca da torneira instalada é a mesma que constava na descrição original. Muitos compradores acreditam que a conferência se resume a encontrar buracos ou infiltrações, ignorando que a substituição de materiais por alternativas de qualidade inferior também configura uma entrega diferente da combinada.

Ao realizar a conferência, vá além do visual. Pegue o documento e percorra cada cômodo com foco nas especificações. Confira se os pontos de elétrica estão onde deveriam estar e se a voltagem corresponde ao memorial. Verifique se os revestimentos de áreas molhadas seguem as orientações de impermeabilização e tipo de material.

Um erro comum é ignorar as áreas que não ficam à vista, como a estrutura interna de um forro ou a marca de um registro de água. Se o memorial indica um item de determinado fabricante, é esse item que precisa estar lá. Caso note algo divergente, não presuma que se trata de uma "melhoria" feita pela construtora; questione imediatamente, pois a mudança de um insumo pode afetar a durabilidade e a manutenção futura do ambiente.

Se você identificar que um acabamento ou equipamento instalado não condiz com o que foi descrito, o primeiro passo é documentar tudo com fotos e anotações precisas. Compare o item físico com a página específica do memorial. A construtora costuma ter um canal de atendimento para essas divergências na entrega. Apresentar o documento em mãos torna a sua argumentação muito mais sólida, pois você não está apenas dizendo que "algo está errado", mas apontando exatamente qual cláusula técnica não foi cumprida.

Vale lembrar que a vistoria é o momento de formalizar essas questões. Uma vez que o termo de recebimento é assinado sem ressalvas, fica muito mais complexo reclamar de itens que não condizem com a descrição técnica, já que a assinatura pressupõe que você validou a conformidade do imóvel.

Antes de assinar qualquer documento de recebimento definitivo das chaves, coloque o memorial descritivo lado a lado com a realidade do imóvel. Se você não tem familiaridade com termos técnicos de construção, dedique um tempo para pesquisar o que cada especificação significa na prática. A segurança de saber que você recebeu exatamente o que foi negociado compensa qualquer atraso na mudança, garantindo que o seu patrimônio esteja entregue com a qualidade prometida desde o início do projeto.

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